Começou a ir ao meu - antigo- posto de trabalho uma certa tarde de Verão, e subitamente tornou-se cliente regular. Nem lhe atribuí grande importância, o que mais por aí há, são clientes num supermercado.
Metia constantemente conversa , sempre muito simpático e atencioso, um sorriso que começava nos lábios e acabava naqueles olhos enormes pretos e misteriosos que não se descolavam de mim desde que entrava até sair.
Despertou-me o interesse -
afinal quem é que não gosta de um bom flirt? - e dei por mim a ajeitar a gravata cada vez que o via entrar, e a ficar melhor disposto depois de o atender.
Passado um mês de "corte", e de já nos tratarmos pelo primeiro nome, adicionou-me no facebook. Uns dias depois, passadas algumas horas a cuscar-lhe as fotos -
todas muito family friendly com amiguinhos e tios e primos, cão gato e periquito -acabei por criar coragem e meter conversa.
Trocámos números de telefone, e convidou-me para ir tomar um copo com uns amigos dele.
Ainda me tentei fazer de difícil... mas sejamos honestos por essa altura já não havia grande volta a dar.
Cheguei ao barzinho, e passado 5 minutos estava completamente à vontade com o pequeno grupo, como se nos conhecessemos hà imenso tempo.
As mãos dele não paravam de me passear pelas calças - o que tornava extremamente dificil manter concentração na conversa com os amigos - e depois de me pagar 2 bebidas (ou foram 5? já não me lembro)acabámos por ir dar uma volta.
Lembro-me de um dos amigos dele quando se despediu de nós, lhe dizer entredentes
"não faças nada de que depois te arrependas", o que só mais tarde fez todo o sentido.
Fomos passear para a praia - vantagens de viver à beira mar no Verão - e acabámos aos beijos numas cadeiras de praia, tudo muito digno de algum enredo romântico de novela das 8.
E estava a ir tudo ás mil maravilhas, até àquele milésimo de segundo, em que, já com a mão bem dentro das minhas calças sussurrou
"Não devia estar a fazer isto, sou um gajo comprometido"(O que demorou um bocado a processar por causa da vodka)
As minhas pernas fecharam-se mais rápido que uma armadilha de caça enquanto me compunha e dava a noite por terminada ali.
Seguiu-se depois disso a mais constrangedora viagem de carro até porta de minha casa, seguida de um passoubem e um txauzinho.
No dia a seguir mandou-me uma mensagem, a dizer que estava bastante alcoolizado, e que foi tudo um grande mal entendido. Sim, aparentemente, "esqueceu-se" de comentar que vive com o namorado não sei bem onde (nem me interessava particularmente na altura), coisinha
insignificante, né?
Ainda passa por mim de vez em quando e faz adeus, com o mesmo sorriso simpático e a maior cara de pau do planeta, e quem não sabe do sucedido pergunta-me porque é que sou "tão antipático com o rapaz".
Afinal, estas coisas não acontecem só no cinema.