Óculos cor de rosa

sexta-feira, 4 de julho de 2014



Quem Nunca os pôs?

Hetero, bi ou tri, feliz ou infelizmente, funciona a TUDO da mesma maneira.
Mal cais de amores por alguém, tudo é maravilhoso.
Entras numa novela das oito na qual és protagonista, parte integrante do casal principal, agraciado pelo melhor partner possível.
Ele é lindo, atraente, inteligente, as piadas hilariantes, os beijos óptimos, e o sexo de sonho.
Os defeitos são "características únicas" e as qualidades, são "dons divinos", com os quais ele te presenteia naturalmente.
E é normal, faz parte do processo.
Se a relação progride, deixas inconscientemente de usar os óculos cor de rosa, e vais lentamente absorvendo a realidade do teu parceiro, em vez daquela imagem de anúncio de margarina que projectaste (não tão) secretamente.

O problema dos óculos cor de rosa, é que não foram projectados para um break up.
Foram feitos para serem removidos ao longo do tempo, para serem usados como rodinhas de segurança da bicicleta, só até serem precisos.
Assim sendo, só existem dois cenários possíveis.

  • Ou os tiras abruptamente, quando tudo acabou, e ficas automaticamente amargurado e enraivecido contra o pulha do teu ex, que era um sacana imbecil com barriga grande e pila pequena, e maldizes a criatura até ao 7º círculo do inferno, para quem quiser ouvir - e para quem não quiser também, afinal ele era um enorme pulha - porque afinal gostavas imenso dele e ele não te valorizava nada;
  • Ou nunca os tiras, e fica aquela memória exageradamente doce na cabeça como quando te lembras daquele algodão doce fantástico que comeste na feira com 5 anos, que te traz automaticamente água na boca. Porque afinal, ele era perfeito. Perdeste um partidão e agora hás-de arder de arrependimento até à próxima reencarnação.

E estes efeitos secundários podem durar uma vida inteira, mas geralmente duram só até voltares a ver aquele teu ex.
E perceberes que ele não era assim tão giro.
E que pensando bem, o sexo não era assim tão bom.
E que analisando bem as coisas, ele não era um pulha quanto isso... nem tu gostavas tanto dele quanto pensavas.
E deitas fora aqueles óculos cor de rosa, até o teu coração te prescrever uma receita nova.



Digam-me de vossa justiça:
Qual foi a vez em que sentiram mais evidentemente o choque dos óculos cor de rosa?

Daqueles dias

segunda-feira, 30 de junho de 2014



Em que dás por ti sem vontade de tentar o que quer que seja, porque acaba tudo por sair ao lado.

Sentes-te velho quando

sábado, 28 de junho de 2014


Pensas em mudar o tarifário do telemóvel, e reparas que os tarifários são todos "sub25", e reparas que vais fazer 25 anos este ano e que estás automaticamente renegado aos tarifários caros e sem internet, porque segundo as operadoras móveis já não és jovem.
Se ouvirem falar de uma bomba posta na Vodafone ou na MEO ou na NOS, fui eu.

Tens Cara de Passivo!

sexta-feira, 27 de junho de 2014


Volta e meia, quando andava ao engate, tinha que ter a fatídica conversa sobre quem faz o quê.
Porque ao contrário do sexo hétero em que está tudo basicamente predeterminado fisiologicamente - quer-se dizer, só há um pirilau, não há grande volta a dar á coisa sem meter dildos pelo meio, digo eu - , no sexo gay, há toda uma diplomacia e negociação na coisa, geralmente determina-se quem vai fazer o quê, como uma transação comercial, muito organizada e cortês - dependendo da situação né - , não é uma rebaldaria em que o primeiro a enfiar ganha (embora tal hipótese seja possível e não tão desagradável quanto possa parecer, mas isso são outros cinquenta).
Por algum motivo, ouvi mais que muitas vezes num misto de divertimento, choque e renovado interesse - ou desilusão em alguns casos:
"A sério? Mas tens cara de passivo!"
enquanto continuámos a conversa a fundo - sem trocadilho pretendido.

E de inicio, ficava constrangido.
Pensava, se calhar faço expressões muito gays - o que em retrospectiva é imbecil de si só, porque todo eu sou gay, expressões incluídas. - talvez deva ser mais sério?
Ou será isto um elogio?
Será que tenho cara de ninfomaníaco?

Porque, sejamos honestos, é um bocado difícil de decifar o que é "cara de passivo", uma pessoa ás tantas pensa que tem alguma doença gay crónica, uma eterna cara de quem gosta de levar com o sardão até cheirar a churrasquinho, que só passa com terapia de choques ou lobotomia.
Antes de continuar, para quem leu o título e não percebeu - porque eu sei que tenho 3 ou 4 leitores heteros, que volta e meia vêm aqui escandalizar-se com as badalhoquices que eu escrevo, que suspeito que saibam tanto de sexo gay quanto eu sei de física nuclear - , um piqueno apanhado - sem trocadilho - sobre o assunto. Imaginemos que o sexo gay é uma troca de... presentes.
Claro que quando falo de presente, falo de

Quem... dá o presente, é o ativo, e quem o recebe é o passivo.



Mas lentamente fui percebendo, que muitos gays, discriminam posição sexual como um fator de personalidade.
Para muitas alminhas, ser ativo é melhor que ser passivo, uma coisa de macho, de orgulho e renome, enquanto que ser-se passivo, por muito agradável que seja é um bocado constrangedor e menos másculo.

E eu entendo, quando é uma questão física.
Nem toda a gente tem que gostar do mesmo, e se ficam desconfortáveis, Oh filhos, ninguém vos vai obrigar a ser picanha no espeto (a não ser que vão àqueles clubes de S&M, aí não garanto nada a ninguém).
Mas daí até discriminar só porque sim, não me cabe na cabeça.

eventualmente, cheguei à conclusão, que antes cara de passivo, que cérebro de idiota.


Hoje, enquanto esperava nas filas intermináveis dos serviços públicos, encontrei uma antiga cliente do supermercado onde trabalhei.

Costumava ir imensas vezes lá, e durante o tempo que lá trabalhei - como aconteceu com tantos outros clientes - desenvolvemos uma relação cordial.

Cumprimentou-me e perguntou me como estava a vida, e conversa puxa conversa acabámos a falar de trabalho. Perguntou-me onde trabalhava atualmente, se estava a gostar, e tal e falámos de oportunidades de trabalho cá no Algarve, que como toda a gente sabe, são muito sazonais.

Eventualmente, pediu-me o nº de telefone, "para o caso de aparecer alguma coisa jeitosa, podia contactar-me" .

"Pois sabes, eu tenho um bar, até pensei em chamar-te para lá, mas é um bar só de mulheres"

Pensei honestamente que a senhora tivesse um bar de lésbicas, e não liguei muito, continuamos alegremente na amena cavaqueira, até ela voltar a insistir.

"Pois, é que tenho um bar de mulheres e agora estou eu lá no bar, porque ando com problema com uma delas"
"Ah pois"
"É que a fulana que se anda a pegar com as outras da sala"
"Ai sim?"
"Pois, quer lhes roubar os clientes, e elas assim não ganham a comissão das bebidas nem as gorjetas"

E o meu cérebro começou a fazer a equação "clientes?"... "comissão?" " bar de mulheres?..."

E  caiu a ficha, com mais força que a gravidade atingiu a cara da Alexandra Lencastre e percebi que a senhora tem um bar de alterne.

E o restante da conversa, foi dos momentos mais constrangedores da minha vida tentar manter-me sério enquanto a senhora para lá falava das amarguras da vida dela, enquanto por dentro gargalhava por ter recebido um convite para trabalhar num bar de alterne primeiro que qualquer uma das minhas amigas.

52 rascunhos

quarta-feira, 25 de junho de 2014


A meio, parados por falta de tempo para os aprofundar.
E quase todos os dias, me lembro de qualquer coisa para escrever, mas este reboliço não me deixa fazer nada, e quando tenho tempo, quero deitar-me e dormir, ou ir passear.
A Lista de blogs por ler vai crescendo e daqui a bocado ninguém na blogaysfera se lembra quem é o Miguel R.
Socorro.

The Normal heart

domingo, 22 de junho de 2014


Já tinha na watchlist há umas semanas, mas só vi anteontem, e chorei litros - até gozaram comigo, certas pessoas que não vou citar para depois não dizerem que são mal falados aqui no blog, hnfs -  não consigo deixar de recomendar.

Frisemos já aqui que não, não é um filme sobre Gays na rebaldaria a dar quecas num penhasco e a apanhar sida, com muitas cenas de nudez e música tecno. Este não é um filme low budget para gays rebarbados que têm perguiça de ver porno.

Passsado na Nova Iorque da década de 80, mais precisamente entre 81 e 85, relata a história de um escritor gay que quando exposto à realidade ainda virtualmente desconhecida do virus da SIDA - que se tornou mundialmente conhecida nesse período - , se torna num ativista pelo seu reconhecimento enquanto epidemia.

O que é uma tarefa relativamente complicada, tendo em conta que o governo tende a ignorar o assunto porque a doença afeta apenas homens gays, que são uma minoria a vários níveis.
É uma história de luta, e não há um final "feliz", mas pelo meio, mete uma boa dose de drama romântico muito à Ryan Murphy (se ignorarmos completamente que produziu Glee, com a profundidade emocional de uma alcachofra em pickles né) e entreajuda, capaz de largar um ou dois "awn" até do mais empedernido coração.

De destacar a interpretação da Julia Roberts, que mesmo não tendo o papel principal, deu toda uma outra alma ao filme.

E é isso, porque já sei que se não falasse disto agora, me ia esquecer.