Vamos começar por honestamente admitir que à volta de 80% dos héteros deste planeta, foram abençoados com dois pés esquerdos e uma noção de ritmo tão minuciosas como a trepidação de uma máquina de lavar roupa avariada.
Não quero ofender ninguém, mas é entrar numa qualquer discoteca para vê-los dançar sobre um pé e depois sobre o outro, levantando as mãos aleatoriamente.
A partir daí nasceu a sabedoria popular de que dançar é coisa de bicha, homem que é homem, não dança, (
ou mexe-se só mínimo, dentro de um quadrado imaginário com 20 cm quadrados de volume, o suficiente para parecer alvo de reanimação por choques elétricos.)
Por isso, no auge da minha adolescência, tinha pavor de sair para dançar.
Porque quando passava alguma música de que eu gostasse -
o que na altura com duas vodkas com redbull em cima, era praticamente toda a playlist da noite -, lá se mexiam os meus quadris como se a pomba gira descesse sobre mim e dissesse
"solta a franga rapaz" enquanto sensualizava loucamente de braço no ar e olhos semicerrados - lendo bem a descrição parece mais que estou a ter uma trip de LSD do que a dançar, mas acreditem em mim quando vos digo que era coisa extremamente erótica e sensual, que nem todos conseguem aguentar sem fortes ondas de desejo sexual.
O que para uma alminha fortemente encravada no armário era digno de pesadelos.
"Vai tudo pensar que eu sou gay!"
(Sim, eu sei, a vida é irónica)
E então arranjava desculpas, ou ia e ficava sentado a brincar com a palhinha enquanto tentava passar despercebido, abanando o pézinho acompanhando a batida da música discretamente.
Eventualmente a fobia passou, mas lembro-me sempre dessa fase quando vou à discoteca gay aqui da zona
e acabo a fazer o twerk -
ou a tentar, vá - se eu e os amigos tivermos bebido demais.
E agora era a parte em que transmitia ao leitor alguma lição de vida ou uma experiência de crescimento pessoal que deixa aquele gostinho doce na boca, mas isto não é o programa da Fátima Lopes.
(Já agora, mudei o logotipo do blog, só porque me apeteceu, e coiso.)