Farto de conhecer marmanjos de outras freguesias, que faziam a minha gasolina evaporar-se ainda mais depressa que a minha paciência, optei pelo plano de ação mais racional, e limitei-me a procurar pretendentes na minha zona de residência - o que me levou a conhecer um rapaz muito simpático que encorna o namorado, mas só aos fins de semana, e um senhor de 60 anos chamado Armando que devia ir ao dermatologista verificar aquele sinal estranho que tem na pila, antes de lhe voltar a tirar fotos. - Até o conhecer.
Misterioso e calado , chamou-me o interesse como uma traça à chama.
Combinámos um encontro, fomos comer um gelado, e depois de percebermos que moramos a 5 minutos um do outro, conhecemos algumas pessoas em comum, fizemos o que qualquer pessoa responsável faria, e acabámos na marmelada à luz da lua.
Continuámos a falar e a combinar ocasionais encontros, eu todo em chamas de desejo ardente, pronto para lhe fazer uma limpeza ao estômago pela laringe, e ele sempre naquele tom blazé que tantas cuecas molha já desde os primórdios da arte da corte.
No fim das contas deu-me acesso ao cofre forte - se é que me faço entender - e resolvi atribuir-lhe esse desapego a uma timidez inicial, porque nem toda a gente encarna a pomba gira com a mesma naturalidade que eu, não é verdade.
E tudo corria sobre rodas, até termos subitamente saltado do divertido ambiente de conquista e charminho sedutor para consultório médico patrocinado pelo calcitrin dos programas da manhã,em que eu era o doutor designado, e ele a octogenária que queria saber se comer beterraba tingia o xixi de vermelho - e nem estou a inventar, esta pergunta foi textualmente feita - e em que ele me contava como tinha muitos "problemas complicados" e - supostas - tendências suicidas.
Sabem quando bebem uma garrafa de vinho tinto a ver pela milésima vez o diário de Bridget Jones - o original, nunca a sequela pavorosa - , e depois do filme acabar imbuídos de motivação alcoólica chegam à conclusão que é a altura ideal para aprender a fazer aquele puzzle de mil peças com dois ursos polares num iceberg que a vossa tia avó Gertrudes vos ofereceu há uns anos atrás, mesmo sabendo que estão com a coordenação motora de uma lontra prenha numa onda de calor?
(não? só eu é que faço isso? oh well)
Eu faço as minhas escolhas romântico/sexuais nos mesmos moldes que monto esse puzzle hipotético.
Toda a gente sabe que o puzzle vai acabar mal montado e sem peças, mas o meu cérebro diz "Oh, mas tu fazes as coisas diferente. Tenta" o que dá sempre valente cagada mas não me impede de tentar.
Na minha cabeça, a lógica era "se continua a vir interagir com a minha pessoa, e a remarcar encontros, deve estar interessado", e faz sentido, digo eu.
Então, pimbas, lá virei o ouvido amigo, com aquela noção imbecil de que "é das dificuldades que nascem os amores mais lindos" ou outro chavão idiota de um filme da Jennifer Love Hewitt.
Acabámos eventualmente por combinar outro encontro, sempre depois do meu trabalho, quando a lua ia alta no céu.
À medida que os encontros se sucediam, ele tornava se mais e mais distante, e sinceramente, eu sou paciente mas não sou a madre Teresa, por isso, quando me levou para um lugar remoto com vista sob a cidade, despiu a camisa e me disse para irmos para o banco de trás, não seria de admirar que todo eu tremelicasse de emoção por todo um cenário romântico a desenvolver-se [muito]lentamente.
...Acho que nunca me tinha ocorrido o quão difícil é manter uma vibe romântica com alguém, quando recebes ao pormenor informações sobre o transito intestinal da pessoa - acredita em mim, se há coisa que nem as luzes da cidade conseguem apagar da tua memória é a menção de diarreia explosiva - , seguido de um detalhado relato de todos os problemas do dia lá no escritório, e queixas de como anda muito tenso ultimamente.
Depois, qual homicida determinado a trucidar qualquer centelha de erotismo que ainda existia, disse-me muito sério, olhos nos olhos, lábios quase a tocar-se
"consegues por-me de pau feito? Hoje de manhã finalmente acordei de pau feito,mas já se foi a vontade toda"- o que é obviamente o sonho de qualquer pessoa, um "olha, não me estás a dar vontade" - , encostou a cabeça no meu ombro, depois de vermos que não havia volta a dar naquele departamento - mais murcho que uma courgette fora de época, diga-se de passagem - , ligou o grindr e pôs-se a conversar com rapazes das redondezas, com direito a elogios e trocas de fotos, enquanto eu olhava pela janela à procura da câmara dos apanhados.
Acabei por, no auge do meu constrangimento, lhe dizer que queria ir para casa, não sem antes levar com o brinde, dito em voz velada e olhos nos olhos, qual Don Juan.
"Eh, ando a sair contigo porque és um rapaz simpático, mas a verdade é que eu e o meu namorado estamos num impasse, e ainda não sei se acabámos ou não, e sinceramente não quero acabar com ele. É por isso que ando com esta ansiedade e diarreia - porque eu tenho mesmo que saber como o intestino dele funciona, até a levar uma tampa."
No dia seguinte mandou-me mensagem a dizer que não estava pronto a conhecer pessoas novas - o que geralmente se diz antes de ter contacto com os genitais das pessoas, digo eu, cortesia comum - e a agradecer-me o gelado que lhe ofereci.
Pelo menos é bem educado, não é?















