Nos meses de Verão, a minha vida torna-se um reboliço autêntico, um dos contras de se trabalhar com turismo, e de toda a santa tradicional família tirar férias em julho e agosto, e entupir terras algarvias mais do que as veias do Fernando Mendes estão entupidas com colesterol, o que me deixa sem tempo nem disposição para andar pela blogaria e derivados.
Ando com imensas saudades disto e tal e coiso, mas só agora está a terminar a confusão, por isso, até lá, para todos os meus queridos leitores, aqueles que me vêm perguntar se acabei com o blogue, e até aqueles que ficaram á minha espera para projetos pendentes, consideremos que aqui a bicha está em época baixa blogsférica, e que esta época baixa está pra terminar.
Estou aqui para lhe falar de um assunto muito importante.
O seu cu.
Huh? diz você caro leitor.
Por esta altura ia escrever um disclaimer a avisar os mais sensíveis que poderiam não gostar muito da conversa que se segue, mas hey, estão a ler um blog chamado "cansei de ser hétero" e a levar com uma drag queen a cantar "es una pasiva" se ainda não perceberam do que se trata, estão aqui por conta própria, amanhem-se.
Sim, o lugar onde o sol não brilha, para muitos objecto de obsessão capaz de arruinar impérios e destruir sociedades.
Muito boa bicha não experimenta assar a maçaroca no próprio forno, porque feliz ou infelizmente está presa aos preconceitos que ainda poluem o imaginário colectivo da bandeira do arco íris, achando que é uma perda de virilidade, que é coisa de maricas, afinal, macho que é macho, não dá o cu... well guess what, o grau de mariquice é o mesmo independentemente da posição.
Venho aqui para lhe dizer, que partilhe o seu cu com o próximo.
Não que vá desfolhar o seu botão de lótus com o primeiro arrumador de carros que lhe aparecer num parque de estacionamento abandonado nos arredores de Odeceixe, mas que um dia com calma e com o seu parceiro amado e confiado, se ponha de quatro e não seja para procurar o telemóvel debaixo do sofá.
E aqui deixo embaixo os 5 motivos essenciais para que você caro leitor, não tenha medo e se jogue de cabeça na odisseia de ser passivo pelo menos uma vez:
1
O cu é seu.
Experimente para ver se gosta, se detesta, porque tem um espacinho livre antes de dar a novela das oito ou porque lhe apetece.
Há sempre o factor próstata a ajudar à equação, e no fim das contas ninguém quer ser a bicha amarga que não come sushi só porque acha que é peixe cru.
O pior que pode acontecer é não gostar, e não voltar a repetir a experiência.
2
Uma entrada triunfante no mundo da Versatilidade
Tinha um namorado (mais ou menos) que tinha uma camiseta estampada com a frase "versatile boys have more fun" - meninos versáteis divertem-se mais, traduzindo livremente.
E é bastante verdade, porque sexo é como comida, quanto mais se pode variar, melhor.
E que melhor maneira para variar do que poder fazer-se ambas as posições no boudoir?
Negar se a isso é um bocado tipo comprar um par de sapatilhas, mas só calçar uma.
3
Valoriza-se mais o parceiro
Depois de passar pela experiência em primeira mão, e independentemente de se ter ou não gostado, temos toda uma outra perspectiva sobre como o(s) nossos parceiros se sentem na situação inversa. Aprende-se que mais devagar significa efetivamente "mais devagar" e não "Enfia tudo até me tocares no pâncreas com a pila, e me parares a função renal pelo caminho, e as tuas coxas me batam no rabo como um martelo de serralharia".
4
Exercício físico
Acredite em mim, descobrirá que dentro de si, reside um contorcionista do cirque du soleil, capaz de meter uma perna na mesa de cabeceira, e a outra na cómoda.
Para além de que se queimam muito mais calorias a levar com ele, e que melhor desculpa para fugir ao ginásio, do que a oportunidade de ter um orgasmo no sofá da sala?
5
Dissipa preconceitos
A derradeira, e mais importante razão, que me levou a fazer todo este post - para além do rum com fanta e das memórias de deliciosas cambalhotas passadas, e sim eu sei o patético que isto soa, não me julguem.
Porque afinal, Qual é o ponto de pedirmos para acabarem com a diferenciação contra pessoas LGBT , quando deixamos nós mesmos que se prolonguem imensos preconceitos dentro da nossa própria comunidade.
Ser passivo nada tem que ver com a masculinidade de uma pessoa.
Não é por dar o buraco negro do sul que vai subitamente fazer madeixas azuis, e virar fã da Lady Gaga.... e se fizer, bom para si, who cares?
O pior tipo de bicha é a bicha complexada.
Não muda porra nenhuma, senão o facto de ficar efetivamente mais íntimo com o seu parceiro, por não imporem barreiras de comportamentos.
Vejamos isto tudo não como um alargar a traseira, mas como um alargar de horizontes.
...ou comer agricultura biológica.
Ou dar um pacotinho de arroz ao banco alimentar contra a fome.
Fica bonito fazer, por isso toda a gente dá uma perninha e proclama que o faz, mesmo que se esteja a cagar para o ambiente, os químicos nos legumes, os pobrezinhos, ou as bichas.
Antes de mais nada, um pequeno grande obrigado a todos os que se deram ao trabalho de deixar uma mensagem de parabéns por estas bandas, só para não dizerem que sou um ingrato. Retomemos a programação costumeira:
Com o lançamento do já popular vídeo do Lorenzo e do Pedro - ou do Pedro e do Lorenzo, não sei como se diz a brand, daqui a nada acham que estou loucamente apaixonado pelos rapazes - a passear Lisboa fora de mãos dadas, veio a inundação de pessoas LGBT friendly pela minha timeline, a dizerem todas que acham muito bem, aplaudindo publicamente o "acto de coragem" que foi andar pelas ruas, de mãos dadas com uma câmara atrás, na capital de país de primeiro mundo onde os actos de violência contra LGBT são escassos, muito menos em plena luz do dia.
Ainda com esta linha de pensamento presente na cabeça, dei por mim no cinema, acompanhado.
Comprámos pipocas que partilhámos - ou melhor, eu comi as minhas e ataquei as dele - , e sentámo-nos no cinema de mãos dadas.
E fiquei à espera dos aplausos e da coroa de flores, da medalhinha de coragem, mas em vez disso sentou-se ao nosso lado um casal roçando os seus sessentas, que olhou mais para nós, sussurrando e apontando , do que para o filme na tela, especialmente depois da primeira troca de beijinhos da noite
- nada de lavagens de estômago com direito a sons de sucção violenta, como o casalinho da fila da frente, uns beijinhos bastante simpáticos e camera ready - e que se sentiram tão desconcertados com a visão contra natura de dois rapazes aos beijos, que nem voltaram para ver a segunda metade do filme.
E não foi a primeira, nem há-de ser a última vez que acontecem coisas destas - O que para mim nem é minimamente incomodo, enquanto não estão envolvidos insultos despropositados, sendo honesto - mas por estes dias , Portugal virou aos olhos dos cibernautas um local de aceitação maravilhosa onde até as bichas pobres têm um iphone e cagam arco íris enquanto os reformados jogam à sueca e cantarolam a lady gaga com sotaque transmontano.
Deixo a pergunta: Quando se deparam com pessoas que se sentem incomodadas com as vossas demonstrações afeto, como reagem? Param o que estão a fazer, ou intensificam-no?
Só tenho a dizer, meninos, Continuem a fazer vídeos a andar de mãos dadas e a cozinhar semi descascados, mas cá para mim a vossa receita que mais me ficou na retina foi o frango assado com molho.
e até suspeito que não sou o único com tal opinião.
Caminho para os trinta, com muito trabalho, pouco dinheiro, e muitas histórias para contar.
Daqui a nada o meu metabolismo dá de si e começo a virar um peixe balão careca como o meu pai, o que é sempre uma perspectiva interessante.
Por isso, para me animar, quero prendas.
Saí de casa meio sem vontade, para ir a uma daquelas festas chatas, em que só se conhece o anfitrião, uma socialização forçada que rapidamente culminou em 3 vodkas no estomago e uma enorme cara de enjoo - Da qual falarei futuramente - 90% da noite, completamente submerso em conversas sobre pessoas que não conhecia e acontecimentos que não presenciei.
E então ele apareceu.
Amigo do anfitrião, trocámos olhares, e foi mágico, e quando apertámos as mãos a eletricidade estática fez disparar o meu coração com uma intensidade que eu nem sabia possível, enquanto descobríamos que tínhamos imensos interesses em comum, e nos sentávamos a discutí-los na rua, longe do barulho, e da história de como a Ana Cláudia dos recursos humanos pintou o cabelo de ombré e lhe fica muito mal.
Pediu-me número de telefone ao meu amigo, e qual gentleman, enviou-me poemas românticos, convidou-me para jantar, e depois no caminho para casa trocámos um longo primeiro beijo, e soube ali que me tinha apaixonado loucamente.
... Vá lá, sabemos todos que isto não aconteceu.
Afinal, É de mim que estamos a falar.
Portanto, o rapaz apareceu, fomos apresentados, era atraente, falámos cinco minutos, eu disse algumas piadas maldosas, fiquei ali baptizado de bicha má, fui pedir outra vodka, fui dançar e nem me lembrei mais dele.
Passou-se um ano, muita água pela ponte, e alguns homens pela cama, até voltar a ver o rapaz.
cruzámo-nos na rua, e quando dei por ela, tinha o meu amigo a dizer-me que o rapaz lhe veio perguntar por mim, extremamente interessado.
Portanto, teve 365 dias para maturar o interesse, como qualquer pessoa normal faz, afinal é assim que as coisas funcionam hoje em dia, ou se dá uma queca no primeiro encontro, ou se espera um ano para meter conversa, vá-se lá entender estas bichas modernas.
Começaram a chover elogios.
Sendo eu um Leonino, isto nem deveria ser problema, não fosse o ridículo de ouvires aquelas linhas cliché de quem te quer saltar para a cueca a serem debitadas mais depressa do que um relato de futebol no rádio.
Dizia me que eu era especial e sexy, e que parecia diferente dos outros - informações que claramente conseguiu assimilar em cinco minutos de conversa há doze meses atrás
- mas que me tinha achado muito arrogante quando nos conhecemos - novamente, provavelmente adquirido de cinco minutos de conversa, o rapaz devia fazer parte do cast do mentalista, ou assim.
Conversa trivial jogada fora, e subitamente aterramos no Zodíaco.
E eu adoro astrologia, mas nunca quando o resultado é:
"Oh, és do signo do meu ex, os leões são uns falsos"
isto a juntar à genial decisão de insultar o gajo a quem estás a passar a asa, levou-me a ir buscar um balde de pipocas, para assistir ao rumo que a conversa iria tomar.
Valeu imenso a pena.
Disse me que procurava o amor e que queria pessoas diferentes - cantada nota mil, diga-se de passagem - mas que o destino tinha sido cruel e não tinha sorte.
"É que eu tenho um problema" "Ai sim?" "Sim" "Qual é?" "Tenho uma pila muito grande"
E em cinco segundos o meu telemóvel era invadido pelo rapaz - que eu só tinha visto uma vez naquela noite, aqueles cinco minutos - nu, de benga na mão e cara de boi cobridor.
Ainda mal eu tinha tido tempo de processar a imagem - que por acaso correspondia á descrição - e já era presenteado com a seguinte frase.
"É que as putas querem pilas grandes, os meninos sérios não"
Por esta altura eu estava a ponderar se lhe aconselhava a seguir uma carreira no stand up, porque me estava a arrancar imensas gargalhadas, quando a história toma proporções emocionais dignas de uma sonata, ou uma balada da Adele.
"O meu ex acabou comigo por causa disso" "... Por causa da pila?" "Sim e porque tinha medo de se apaixonar mais" "Ah... pois" (Fica a Dica, falar do ex quando queres saltar na cueca de alguém é tipo regar uma plantação de milho com gasolina.) "És tu homem para me amar, mesmo com a pila grande?" (Porque aparentemente, ter uma jibóia cega, é o mesmo que casar com alguém com um tumor cerebral, é preciso muito amor e dedicação para lidar com isso.)
Por esta altura estava com a clara sensação que estava dentro de um filme porno, e que a qualquer momento todo o ambiente ao meu redor ia ficar a meia luz, e ao fundo aquela música de saxofone ia tocar enquanto ele aparecia de pirilau na mão para alegadamente me enrabar até ao sol raiar - e se rimou era claramente verdade.
Completamente constrangido com a conversa, tentei mudar o assunto, mas a conversa oscilava entre a genitália do mancebo, e o ex que lhe deu um par de patins.
Quando lhe perguntei se a coisa tinha sido muito séria, recebi um
"Chorei e gritei muito, estou a morrer por dentro mas já passou, sou forte" "Acabaram quando?" "Há uma semana, então resolvi começar à procura de um homem bom e honesto"
portanto, nessa uma semana, veio meter conversa de engate comigo, mesmo estando "a morrer por dentro" uma história surpreendente de superação emocional, Equiparável à das vitimas do tsunami no Haiti.
Ficou até hoje à espera que lhe diga quando quero combinar um café, ou "qualquer coisa".
Cada vez que o encontro na rua, lembro-me desse café, carinhosamente marcado para dia de são nunca, de manhã, só para variar.
Fui sair à noite com um amigo e acabámos por encontrar duas travestis amigas dele - as duas muito simpáticas diga-se de passagem.
Como o cosmos acha que a minha autoestima não anda a ser escoiceada vezes suficientes, fez-me o favor de me deixar assistir de bebida na mão a ver enquanto hordes de homens se faziam ás amigas travas, tiravam selfies, se roçavam loucamente nelas, qual festa da salsicha, lhes pagavam bebidas e ofereciam estadias em hotéis e me ignoravam por completo.
Fiquei a sentir-me como a Zara, em dia de saldos na primark, com a noção que até as travestis têm mais procura de mercado que eu.
Seja o meu caro leitor, a pessoa mais intolerante do mundo - o que me parece uma combinação pouco provável - a melhor fag hag da história da humanidade,uma bicha que aprecia o belo quarto escuro do woof x - quem é que dá nomes as estes bares? a sério - ou simplesmente um cibernauta aborrecido que veio parar ao meu blog depois de beber demasiado vinho ao jantar e pesquisar na internet "vaca da ana malhora", frase chave que até á presente data me trouxe inúmeras visitas, a verdade é que já conheceu pelo menos um gay, vulga bicha.
Porque gosto de fazer listas partilhar sabedoria, e o meu amor pela palavra bicha se demonstra imortal, tinha que fazer esta lista.
preparem-se porque:
A Bicha Activista
É aquela que leu o título do post, e já está a escrever um comentário, a dizer que estou a ser preconceituoso, e que é uma afronta à liberdade de expressão de género, ou qualquer coisa do género.
Claro que temos que reinvindicar os nossos direitos, mas a bicha exagera, ao ponto de fazer campanha para fechar um restaurante porque serviu salada feita com alface cultivada por um agricultor analfabeto que chamou paneleiro ao vizinho, o que leva à conclusão que o restaurante é patrono das políticas de repressão sexual.
A Bicha Fashion
A vida é um editorial.
Ou pelo menos assim pensa ela, enquanto publica looks do dia nas redes sociais.
Gasta 90€ num corte de cabelo, e usa as tendências todas que vai vendo no tumblr .
Já foi lumbersexual, já fez cabelo ombré e até já usou creepers.
Tudo vale em nome da moda- mesmo que 90% das tendências lhe assentem mal e pareça um panda vermelho toxicodependente.
A Bicha Buffet
Já comeu meio mundo - alegadamente - e não tem pudores em descrevê-lo o mais graficamente possível, desde as posições que testou à marca de lubrificantes que já usou.
Usa o grindr como quem usa um GPS, e acha que as suas aventuras sexuais são no final da equação, vitórias pessoais.
É um mix entre a página de dicas sexuais da cosmopolitan, a página de confissões íntimas da revista maria, e os classificados do correio da manhã, aquelas três secções que toda a gente desfolha sem levar muito a sério, afinal o conteúdo é bastante previsível e... sem conteúdo.
Sim, já percebemos, a vida é um buffet. mas nem por isso tem que comer todos os pratos que aparecem, e fazer review no yelp.
A Bicha Social
Podes reconhecê-la pela habitual frase: "Deixa-me só postar isto, um segundinho"
vive segundo a máxima "Se não postou, não aconteceu.".
Adiciona toda a gente no facebook, mesmo a vizinha que encontrou na sala de espera da clínica onde foi tratar as hemorróidas
Tem milhares de seguidores no instagram, e farta-se de usar as hastags #gayboy e happy, e anda sempre com um selfie stick no cu.
... Não é no cu?
...Oh
...Dada a rapidez com que saca dele cada vez que socializa para tirar selfies, seja onde for, bem parece.
A Bicha Madre Superiora.
Senta-se lá do alto da sua sexualidade reprimida e passa julgamento em todas as outras bichas, que usam a genitália para mais do que expelir xixi.
Detesta conversas de sexo, e fica acanhada com o propecto de mexer em bolas que não as de praia.
Sem qualquer tipo de experiência sequer no campo amoroso, têm ainda assim uma costela de Oprah, sempre cheias de sabedoria absorvida por osmose, dos milhentos romances que leram nas revistas e viram na TV, que prontamente partilham com o mundo.
A bicha que é "hétera"
Pode largar arco íris enquanto se peida, saber as coreografias da Britney todas, ou assistir todas as temporadas de Rupaul's Drag Race - não é ser preconceituoso, é ser honesto - mas ou arranja uma namorada num outro estado... ou num outro país - abençoado seja o skype- ou então escuda-se atrás da já clássica declaração: Eu não sou gay, só não descobri ainda a rapariga certa.
Provavelmente, porque vinham todas sem pénis, não é amigo.
E passo a bola para o vosso campo: Conheceram/conhecem alguém que se enquadre numa destas descrições? Que tipo de bicha faltou?
dêm-me as vossas sugestões por comentário|e se forem o melhor comentário habilitem-se a ganhar... Well, não sejam interesseiros, comentem só.
...É chegar a casa cansado do trabalho, ir buscar uma caneca de água à cozinha, e aperceberes-te que o teu pai está no sofá a ver porno.
Estou a beber água da torneira da casa de banho enquanto escrevo este post barricado no meu quarto a balançar-me lentamente para trás e para a frente na cadeira e a tentar apagar a imagem mental que está para sempre cicatrizada no meu cérebro.
Preciso urgentemente de férias da minha cabeça, no mínimo.
Dei-te a mão lentamente.
Sentados no carro, com a brisa fresca da noite a entrar pelas janelas, e o teu cabelo a ondular levemente.
Passei te a mão pela cara e semicerraste os olhos, aproximámo-nos e trocámos um beijo, timidamente, e comecei a puxar-te para mim.
Sorriste, e sorri contigo.
A lua brilhava alto no céu, iluminando-nos gentilmente, enquanto os animais na mata sassaricavam enquanto se mexiam pelo escuro, naquele espaço recôndito perto da praia.
...Mas a lua brilhava mesmo muito...demais até.
... Abri a medo os olhos, e encandeei-me.
A lua estava demasiado baixa.
... Afinal, Não era a lua. Era um carro. E também não eram animais silvestres, eram dois agentes da polícia.
"Documentação, por favor Porque é que estão aqui? Podemos revistar o carro?Estão aqui a consumir estupefaccientes?"
Pelo menos não recebo queixas de encontros aborrecidos. Just saying.
A primeira vez que entrei num site de encontros, ainda antes de existir o furor do grindr e dos derivados, estando eu completamente enfiado no armário, cheio de dúvidas existenciais e apavorado de ser descoberto na internet por algum vizinho coscuvilheiro, usei a foto de um panda como avatar, um nickname cheio de caracteres especiais e vi repleto de espanto às duas da manhã os poucos perfis que havia, sem qualquer pingo de intenções de me meter com algum dos homens que supostamente procuravam "o amor".
Eventualmente, o referido site sugeriu-me simpaticamente que preenchesse as minhas preferências.
Abrindo a janelinha, fui redireccionado para uma série de caixinhas seleccionáveis, em que punha as especificações do meu futuro pretendente.
Um bocado como ir ao OLX procurar carro, só que em vez de procurar por um com ar condicionado e estofos de pele, procuravam-se pessoas, e podia especificar se queria algum fumador, se preferia magro, branco, negro ou asiático, cor dos olhos, altura, e até tipo de pilosidade.
Nunca cheguei a preencher a checklist, já tinha afinal morto a curiosidade, e eventualmente desliguei-me daquele site - que confesso até hoje nem me lembrar qual seja - e não voltei a pensar no assunto.
Anos mais tarde, quando comecei a ter uma - atribulada - vida amorosa, fui confrontado novamente com as preferências, vulgos critérios.
Em determinada altura, fui até rejeitado por "não ser suficientemente magro" ou "ter pelos demais".
Quando em conversa com os meus confidentes me diziam, em tom de brincadeira depois de uma aventura menos bem sucedida:
"Tens que melhorar os teus critérios"
"Mas os meus critérios estão bem assim"
"Então?"
"Só quero um gajo simpático que me trate bem"
Porque não procuro um loiro de olhos azuis alto e definido, que não fume e tenha um emprego de prestígio.
Não quero namorar um ken, nem nunca gostei de brincar com bonecos, vá-se lá saber porquê.
Mas as bichas - e as héteras também, sejamos honestos - deste mundo andam cheias deles.
Gravam-nas no cérebro e recitam nas como um mantra, como se essas características fossem um dealbreaker crucial.
Fazem listas, como se fossem comprar uma assoalhada para a avó inválida e tivessem que se certificar que cumpre as normas de segurança mínimas.
Chegam ao cúmulo de pontuar, como se estivessem numa feira do campo a premiar o melhor porco da roça.
Depois, quando não encontram alguém que corresponda a essa lista imensa de pedigree, queixam-se que estão sozinhas e ficam amargas como uma ameixa demasiado ácida que ninguém quer comer - o que ironicamente roça a verdade.
Às vezes, apetecia-me fumar.
Como criança dos 90s, lembro-me daquela aura de sofisticação que via quando, nos milhões de filmes PG 18 que via à socapa dos meus pais, eles - os personagens - em momentos de introspecção silenciosa pela noite sacavam de um cigarro que fumavam à janela banhados pela lua e pelas luzes da cidade não tão distante, ao som de saxofones roucos.
Na altura era aceitável, imagem de marca da geração de bad boys de gel e casaco de cabedal.
Envoltos pelo fumo, pareciam misteriosos e apelativos.
Como se a nicotina validasse qualquer tipo de dúvida existencial.
Mas como detesto aquele sabor e tenciono preservar os meus pulmões de origem, acabo sempre a debater internamente a minha decrescente fé no conceito de envolvimento romântico, com um iogurte na mão, ou uma caneca de chá, enquanto olho pelo ecrã do computador, não para a lua mas para as notificações que se empilham uma a uma no email.
"Tem mensagens novas no Manhunt", "Não te vimos recentemente, mas você acabou de receber uma mensagem no Hornet do fulano" "Homens solteiros na sua região! encontra o teu match com o tinder"
Um lembrete a passar o sal na ferida, "Há tanta oferta, só estás sozinho em casa porque és esquisitinho", lembrando que é só abrir uma aplicação para ter acesso a um harém de homens tão ou mais carentes que eu.
Só me lembra uma conversa que tive há dias sobre a facilidade de acesso que se tem hoje em dia à informação, e como ainda assim há tantas pessoas sem qualquer tipo de cultura ou senso comum.
Chegamos á conclusão que não serve de muito ter toda a informação à disposição se não se souber usá-la.
Com os homens (ou o dating world num geral), começa a passar-se o mesmo.
Enquanto procuro quem me queira dar a mão no cinema, histórias mirabolantes de engates regados a álcool drogas e rock and roll enchem os meus ouvidos.
Penso que talvez seja eu que tenha os valores trocados, e me devesse contentar com o prospecto de arranjar um desconhecido para mais uma sessão de sexo sem conversas nem compromisso.