O Primeiro

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Entrei na loja, com pressa, em busca de uma prenda para uma amiga. Uma blusa, um colar, um lenço, qualquer coisa para oferecer num aniversário comprada à última da hora, como manda a norma entre pessoas despassaradas.
Percorri a loja com o olhar rapidamente e vi-o de soslaio.
O primeiro marmelo por quem me apaixonei estava ali, qual aparição do além, oito anos depois com o mesmo corte de cabelo, alto e magro com um relógio preto no pulso e barba cuidadosamente aparada, a trabalhar atrás do balcão da stradivarius.

Não vou negar que durante alguns anos meses sonhei com o momento em que nos encontrássemos na rua ocasionalmente, ele me visse todo elegante e maravilhoso - como sempre obviamente - e percebesse a monumental cagada que fez, me pedisse desculpa de lagriminha no olho, para que eu pudesse dar a estocada final com um redondo "não" esmagador de egos (já agora, na minha fantasia ele era trolha e eu estava com uma camisa de linho branco e umas calças de duzentos euros, porque a minha imaginação é uma novela da globo).
Afinal, foi ele quem me deu a primeira tampa monumental, que me fez ficar uns 9 meses trancado em casa a comer haagen daz e a ouvir Toni Braxton engordando a olhos vistos e adoptando uma postura celibatária que roçou o preocupante para alguém com a libido de um coelho em época reprodutiva.

Na realidade infelizmente não costumo andar com camisas de linho quando vou comprar prendas de aniversário... e quanto às calças de duzentos euros... bem eram umas jeans rotas de 10 euros compradas nos saldos, largas e gastas.

Dei por mim a rever tudo o que se passou, sorrindo nostalgicamente, parcialmente escondido atrás da prateleira dos óculos de sol.
Afinal, na altura era eu um jovem inexperiente e ingénuo, alheio à complexidade de uma relação amorosa e das implicações que ela mesmo depois de um mau término.
Vivia tudo com mais intensidade e não analisava as coisas de cabeça fria.
Agora não, sou uma  pessoa madura e racional, que não se deixa afectar por memórias de um pé na bunda com quase uma década de existência e vive a sua vida de cabeça erguida.
Uma pessoa madura e racional encalhada mal vestida e despenteada.
Então, como pessoa lógica e racional sem rancores nem complexos que sou, larguei a secção dos saldos, tão minha amiga, e peguei na blusa mais cara que a loja tinha, uns brincos e um cinto a condizer, mentalizei-me para fazer a linha rica, empinei o nariz, e dirigi-me à caixa para pagar.

Pus a minha maior cara de snob, e preparei a minha cara de falsa surpresa, olhei-o pela primeira vez desde que entrara na loja diretamente nos olhos e pedi para fazer um embrulho, porque era oferta.
... E fiquei genuinamente surpreso.
... Afinal não era ele.
Sabem aquele momento, em que se começam a rir involuntariamente, depois de fazerem figura de ursos? Foi mais ou menos o que aconteceu, quando aquele rapaz muito bem parecido me perguntou se queria ou não laçarote no embrulho.
Quem ganhou nisto tudo, foi a vaca da minha amiga, só porque me esqueci dos óculos em casa, justamente num dia em que acordei aparentemente nostálgico.

E vocês?
Ainda ficam balançados quando encontram o vosso "primeiro"?

Eu como os meus amigos

terça-feira, 15 de setembro de 2015


Sentado com um conhecido enquanto tomávamos um latte, folheando distraidamente as redes sociais no ecrã dos smartphones, e jogando conversa fora sobre, confessa-me divertido e em tom confiante
"Cada vez que quero dar uma aleatória, não arranjo um engate. vou ter com um amigo"
"Como assim?"
"Ora, em vez de engatar um homem qualquer, vou jantar com um amigo e acabamos a dar um fodão"
"Porquê?"
"É mais confortável, sinto-me mais á vontade com eles"
"Mas não queres nada com eles?"
"Credo não, somos só amigos" - Responde-me, como se lhe tivesse sugerido a maior barbaridade possível, naquele tom meio pedante que só uma bicha de "boas famílias" consegue ter,
Na minha cabeça, acho meio desconfortável, porque a longo prazo isso muda a forma como nos vemos, afinal "dar um fodão" nunca é só "dar um fodão", especialmente quando convives diversas vezes com as pessoas. 
Acaba por se perder o desinteresse da amizade quando se sabe que há a possibilidade de dar uma queca quando não se arranja melhor.
Isto é tudo tipo ter um restaurante. Tens uma pizzaria, que faz boas pizzas. Um dia lembra-se que quer experimentar vender churrasco, e kebab. No final, em vez de uma boa pizza, temos três pratos sem graça, e deixamos de ir áquela pizzaria.

Tento  explicar-me, e acabo a ser olhado como se sofresse de demência por não desfrutar do melhor de dois mundos - e talvez a metáfora da pizza tenha ajudado um pouco, mas hey, estava com fome.

Diz-me que sou demasiado moralista, porque devia aproveitar e ir com as pessoas com quem tenho mais confiança. Segundo essa lógica, talvez devesse ter sexo com o senhor Fernando da Padaria, ou com a minha cadela.

Bebe se o latte, dá-se o passoubem, e vamos cada um à sua vida, até ao próximo café.

No caminho para casa, dou por mim a pensar que já não é a primeira pessoa que me comenta este assunto nos mesmos moldes, e confesso que nestes tipos de situações me sinto sempre cada vez mais desadequado.
Talvez seja mesmo eu, que tenho laivos de OCD, e não gosto de sequer misturar as ervilhas com o puré no prato, porque apenas o conceito traz-me um arrepio de desconforto espinha abaixo.

Acho que continuarei, mantendo as minhas amizades o mais assexuadas possível.

E você?
Come os seus amigos?

Afinal, o que querem os gays?

domingo, 13 de setembro de 2015


Sexo Fácil, ou Relacionamentos Duradouros?
Não tenho certezas sobre o assunto, por isso,deixo aberto o debate, com uma única regra, não digam "é relativo".

Sabes que és gay quando:

sexta-feira, 11 de setembro de 2015


Encontras aquela colega boazona - afinal, não é preciso comer filé para ver que é tenro, não é verdade - na rua, toda trabalhada na elegância, decotada e bem composta,
 e a primeira coisa que te ocorre dizer, é o quanto adoras aqueles stilettos que ela tem calçados.


Época baixa

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Fica aqui o piqueno aviso.
Nos meses de Verão, a minha vida torna-se um reboliço autêntico, um dos contras de se trabalhar com turismo, e de toda a santa tradicional família tirar férias em julho e agosto, e entupir terras algarvias mais do que as veias do Fernando Mendes estão entupidas com colesterol, o que me deixa sem tempo nem disposição para andar pela blogaria e derivados. 
Ando com imensas saudades disto e tal e coiso, mas só agora está a terminar a confusão, por isso, até lá, para todos os meus queridos leitores, aqueles que me vêm perguntar se acabei com o blogue, e até aqueles que ficaram á minha espera para projetos pendentes, consideremos que aqui a bicha está em época baixa blogsférica, e que esta época baixa está pra terminar.

5 motivos porque toda a bicha deve experimentar ser passiva

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Estou aqui para lhe falar de um assunto muito importante.
O seu cu.
Huh? diz você caro leitor.
Por esta altura ia escrever um disclaimer a avisar os mais sensíveis que poderiam não gostar muito da conversa que se segue, mas hey, estão a ler um blog chamado "cansei de ser hétero" e a levar com uma drag queen a cantar "es una pasiva" se ainda não perceberam do que se trata, estão aqui por conta própria, amanhem-se.
Sim, o lugar onde o sol não brilha, para muitos objecto de obsessão capaz de arruinar impérios e destruir sociedades.
Muito boa bicha não experimenta assar a maçaroca no próprio forno, porque feliz ou infelizmente está presa aos preconceitos que ainda poluem o imaginário colectivo da bandeira do arco íris, achando que é uma perda de virilidade, que é coisa de maricas, afinal, macho que é macho, não dá o cu... well guess what, o grau de mariquice é o mesmo independentemente da posição.

Venho aqui para lhe dizer, que partilhe o seu cu com o próximo.
Não que vá desfolhar o seu botão de lótus com o primeiro arrumador de carros que lhe aparecer num parque de estacionamento abandonado nos arredores de Odeceixe, mas que um dia com calma e com o seu parceiro amado e confiado, se ponha de quatro e não seja para procurar o telemóvel debaixo do sofá.

E aqui deixo embaixo os 5 motivos essenciais para que você caro leitor, não tenha medo e se jogue de cabeça na odisseia de ser passivo pelo menos uma vez:

1
        O cu é seu.


Experimente para ver se gosta, se detesta, porque tem um espacinho livre antes de dar a novela das oito ou porque lhe apetece.
Há sempre o factor próstata a ajudar à equação, e no fim das contas ninguém quer ser a bicha amarga que não come sushi só porque acha que é peixe cru.
O pior que pode acontecer é não gostar, e não voltar a repetir a experiência.

2
        Uma entrada triunfante no mundo da Versatilidade

Tinha um namorado (mais ou menos) que tinha uma camiseta estampada com a frase "versatile boys have more fun" - meninos versáteis divertem-se mais, traduzindo livremente.
E é bastante verdade, porque sexo é como comida, quanto mais se pode variar, melhor.
E que melhor maneira para variar do que poder fazer-se ambas as posições no boudoir?
Negar se a isso é um bocado tipo comprar um par de sapatilhas, mas só calçar uma.

3
       Valoriza-se mais o parceiro


Depois de passar pela experiência em primeira mão, e independentemente de se ter ou não gostado, temos toda uma outra perspectiva sobre como o(s) nossos parceiros se sentem na situação inversa. Aprende-se que  mais devagar significa efetivamente "mais devagar" e não "Enfia tudo até me tocares no pâncreas com a pila, e me parares a função renal pelo caminho, e as tuas coxas me batam no rabo como um martelo de serralharia".

4
        Exercício físico


Acredite em mim, descobrirá que dentro de si, reside um contorcionista do cirque du soleil, capaz de meter uma perna na mesa de cabeceira, e a outra na cómoda.
Para além de que se queimam muito mais calorias a levar com ele, e que melhor desculpa para fugir ao ginásio, do que a oportunidade de ter um orgasmo no sofá da sala?


5
        Dissipa preconceitos

A derradeira, e mais importante razão, que me levou a fazer todo este post - para além do rum com fanta e das memórias de deliciosas cambalhotas passadas, e sim eu sei o patético que isto soa, não me julguem.
Porque afinal, Qual é o ponto de pedirmos para acabarem com a diferenciação contra pessoas LGBT , quando deixamos nós mesmos que se prolonguem imensos preconceitos dentro da nossa própria comunidade.
Ser passivo nada tem que ver com a masculinidade de uma pessoa.
Não é por dar o buraco negro do sul que vai subitamente fazer madeixas azuis, e virar fã da Lady Gaga.... e se fizer, bom para si, who cares?
O pior tipo de bicha é a bicha complexada.
Não muda porra nenhuma, senão o facto de ficar efetivamente mais íntimo com o seu parceiro, por não imporem barreiras de comportamentos.


Vejamos isto tudo não como um alargar a traseira, mas como um alargar de horizontes.

Ser ativista LGBT é tipo reciclar...

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

...ou comer agricultura biológica.
Ou dar um pacotinho de arroz ao banco alimentar contra a fome.
Fica bonito fazer, por isso toda a gente dá uma perninha e proclama que o faz, mesmo que se esteja a cagar para o ambiente, os químicos nos legumes, os pobrezinhos, ou as bichas.